terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A missa de ontem e a de hoje

Por Humberto Pinho da Silva
Quando fiz treze anos, meu pai ofereceu-me o missal. Era livro de páginas finíssimas, encadernado a percalina preta, e com o topo das folhas pintadas a encarnado.
Em minha casa era o único que não tinha missal.
Por certo os jovens leitores não sabem o que é o missal. Não é livro grosso, romance dos antigos, que pareciam não ter fim; mas livro de missa, semelhante ao que o sacerdote usa no ambone ou altar.
Bem, era mais pequeno e muito mais leve, contendo: o ordinário da missa, Evangelho e Epistola do dia.
Por ele acompanhava-se o desenrolar do culto, lendo-se as mesmíssimas orações que o padre rezava.
Durante anos, toda a família, aos domingos e dias santos de guarda, vestia a melhor fatiota, e em grupo, de missal na mãos ia para a paróquia mais perto
Um dia tudo terminou; o ordinário da missa, que era em latim, passou para português, e cada paróquia introduziu diferentes orações.
Numa infrutífera tentativa, adquiri livrinho da nova missa. Era folhetinho que cabia na palma da mão, mas rapidamente verifiquei que seu uso era desnecessário, já que havia diferença de preces de Igreja para Igreja; e assim passei a comparecer ao culto de mãos a abanar, repetindo, em coro, o que ouvia e engasgando-me nas frases mais rebuscadas.
Em Portugal ainda houve, em vários templos, a tentativa de deixar, nos bancos, folhas volantes com o “ordinário” e hinos, mas essa inovação caiu em desuso.
No Brasil, e falo do Brasil, porque é a minha segunda pátria, não por direito, mas pelo coração, que periodicamente visito, existe jornalzinho que se busca à entrada do templo com as orações do dia, mas infelizmente nem sempre coincide com o que o celebrante diz.
Vêm o exórdio a propósito da necessidade de se voltar aos missais ou pelo menos existirem folhas plastificadas com o ordinário da missa, evitando-se assim o triste espectáculo da assembleia não entender e desconhecer quando se deve permanecer de pé ou de joelhos.
E se for novato fica com pouca vontade de regressar, já que não há, como acontece no meio evangélico, quem cuide de o receber e orientá-lo.
Manter a situação como está, de imitarmos uns aos outros, é que não me parece a melhor.
Não seria interessante, nas homilias ou inicio da missa, haver o cuidado de abordar o sentido de Eucaristia, já que muitos desconhecem o que se passa durante o culto?
Pode parecer pertinente esta crónica, mas é útil, mormente para os responsáveis reflectirem no assunto e tomarem as medidas mais adequadas, evitando-se cenas caricatas que ocorrem em paróquias menos previdentes.

E-mail: Humbertopinhosilva@sapo.pt
Humberto Pinho da Silva é renomado jornalista português e eminente articulista desta Gazeta de Notícias.

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