"Quem deveria sentar no banco dos réus". Por Ricardo Noblat
Na foto: Eduardo Saboia
Finalmente apareceu alguém sem medo de confrontar a presidente da
República - o diplomata Eduardo Saboia, cérebro da operação que resultou
na retirada da Bolívia do senador Roger Pinto Molina, refugiado em
nossa embaixada de La Paz há mais de 450 dias.
O Brasil acatara o pedido de asilo político dele, que denunciara
autoridades do seu país por envolvimento com narcotráfico. A Bolívia
negara o salvo-conduto para que Roger deixasse o país em segurança sob a
acusação de que é corrupto.
Saboia disse que Roger não podia
receber visitas. Nem circular dentro do prédio da embaixada. Nem se
comunicar com a família. Nem tomar banho de sol. Uma autoridade do
governo boliviano comentou certa vez que ele ficaria ali até morrer.
- Você imagina ir todo dia para o seu trabalho e ter uma pessoa
trancada num quartinho do lado, que não sai? Aí vem o advogado e diz que
você será responsável se ele se matar. Eu me sentia como se fosse o
carcereiro dele, como se eu estivesse no DOI-Codi.
Presidente
da República não bate-boca com funcionário de escalão inferior. Dilma
bateu ao dizer ter provado da desumanidade dos DOI-CODIs. E que a
distância que os separava das condições de vida na embaixada de La Paz
equivalia à distância entre céu e inferno.
O dia sequer
terminara e Saboia já replicava Dilma. "Eu que estava lá, eu que posso
dizer. O carcereiro era eu. Ninguém mais viu aquela situação",
respondeu. Desautorizou a presidente, portanto. E sugeriu que ela nada
poderia falar a respeito porque simplesmente não estava lá.
Nenhum ministro, senador, deputado ou presidente de um dos poderes da
República foi tão longe em relação a Dilma do que Saboia, um mero
encarregado de negócios que respondia por uma embaixada de segunda
classe na ausência do embaixador.
Mas, de duas, uma. Dilma e o
bando de assessores que a cercam não prestaram atenção no que afirmou
Saboia. Ou prestaram, mas a presidente quis bancar a esperta e mudar o
foco da discussão sobre o traslado do senador. Até este momento, a
discussão é favorável a Saboia.
Recapitulemos. Disse Saboia:
“Eu me sentia como se fosse o carcereiro dele, como se eu estivesse no
DOI-Codi”. Era Saboia, bancando o carcereiro, quem se sentia como se
estivesse no DOI-CODI. Não disse que o senador enfrentava condições
semelhantes às dos DOI-CODIs.
As palavras ditas por Dilma: “Eu
estive no DOI-Codi, eu sei o que é o DOI-Codi. E asseguro a vocês que é
tão distante o DOI-Codi da embaixada brasileira lá em La Paz (Bolívia)
como é distante o céu do inferno”.
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